Último quartel do Século XIX
Terá sido nos anos 80 do século XIX que surgiu, de facto, a Academia do Porto. Já existiam antes nesta cidade estudantes do que pode chamar-se ensino superior, pelo menos desde a fundação da Real Academia de Marinha e Comércio em 1803. Há mesmo referências desde meados do século a pensões de estudantes, a cafés ou outros locais frequentados por estudantes, o que indicia que eles já seriam, como seria de esperar, um subgrupo social.
Nos anos 1880, os académicos portuenses promovem iniciativas que mostram uma assunção da ideia de Academia do Porto: criação do Hino Académico do Porto, com letra de José Leite de Vasconcelos e música de Aires Borges (que parece ter sido estreado em 1881); a adopção do traje nacional (vulgo “Capa e Batina”), nas décadas de 1870-80 e a fundação da Estudantina/Tuna [Académica] Portuense em 1890 (resultante da fusão de grupos anteriores já existentes).
Em 1890, a Estudantina/Tuna [Académica] Portuense, sob a direcção de Raul Laroze Rocha, apresenta-se em Salamanca e Madrid. Mais tarde, no Carnaval de 1897, realiza nova digressão a Espanha, apresentando-se em Santiago de Compostela, sob a regência de Carlos Quilez.
Em 1899, participa nas comemorações do primeiro centenário do nascimento de Almeida Garrett, sob direcção de Henrique Carneiro. Passado um ano, em janeiro de 1900, a Tuna instala-se na Rua dos Fogueteiros e da regência encarregam-se, sucessivamente, os maestros Sousa Morais e Costa Carregal. Apresenta-se em Março perante a Academia do Porto e efectua vários recitais em Lisboa.
Em carta enviada ao O.U.P. a 10 de julho de 1959, por José Dórdio Rebocho Paes e publicada no jornal do Orfeão, seguem as seguintes palavras sobre essa mesma digressão à Galiza:
"Em 1891 havia aí no Porto três grupos musicais. O mais importante era a Tuna Académica de que eu fazia parte. O seu reportório não era muito vasto e cantava a "Gioconda", "Entreacto de Carmen", " Serenata de Gounod", "Serenata de Bandolim", etc., etc. Fizeram-se grandes excursões a Braga, Viana do Castelo, Aveiro e Ílhavo. Deram-se vários concertos no Teatro Príncipe Real tendo colaborado num destes Guerra Junqueiro, recitando versos seus no Palácio de Cristal, em matinée.
(...) em 1890 fez-se uma excursão a Salamanca e Madrid, que foi acompanhada por vários estudantes adidos de Lisboa e Coimbra. Tocavam-se os dois hinos, o português e o espanhol, e dois ou três pasacalles. A viagem foi triunfal, principalmente em Salamanca, o Teatro Eslava foi entusiasticamente aplaudido. Em Madrid não fomos tão bem recebidos, pois se dizia que íamos lá por motivos políticos. No entanto, houve reunião no Anfiteatro da Faculdade de Medicina, onde se discursou com entusiasmo e no hotel onde nos instalamos fomos cumprimentados por Salmeron.
Visitámos todas as faculdades, o Museu do Prado e houve um beberete "en honor de los estudiantes portugueses". Foi-nos oferecido pelo Dr. Esquizinho, neurologista distinto, um almoço no seu manicómio em Carabanchel, próximo de Madrid, correndo entusiasticamente."
A. da Costa refere no Jornal Porto Académico, no artigo "Dos tempos que já lá vão" sobre a digressão de 1909:
"Marcado o dia da largada, na hora da partida lá estavam todos na Estação de São Bento com os instrumentos, a bandeira da Tuna tufada de fitas cujo colorido era um grito de alegria no meio das Capas Negras daquela embaixada de aventura e da mais ridente gaia Lusitana. A viagem foi farta em peripécias e anedotas cheias de graça. Quando atravessámos a fronteira mais nenhum de nós falou português e a língua de Cervantes era "esfaqueada" a propósito de tudo e de nada. Quando chegámos a Santiago de Compostela, toda a cidade académica estava à nossa espera na estação e as saudações redobravam de entusiasmo, a que nós correspondíamos com todo o calor e vibração da alma portuguesa que levava à Galiza amiga o abraço generoso da gente de Portugal.
A Tuna formou a custo sob a regência do Prazeres e ao som dos acordes do Hino Académico rompeu a marcha pelas calles de Compostela entre vivas, palmas e flores a caminho do Ayuntamiento para cumprimentos ao Alcaide. Durante o percurso, das janelas e das varandas, as flores caíam sobre a Tuna, abriam-se sorrisos em bocas frescas das mulheres de Espanha; cobriam-se olhares de curiosidade e de ternura que faziam vibrar, sob as nossas Capas Negras, as nossas almas juvenis."
Resulta mais ou menos pacífica a noção de que a primeira viagem de uma Tuna portuguesa, no caso a Espanha, foi realizada pela Tuna Académica do Porto, sob a direcção então de Raul Laroze Rocha, que teve por destino Salamanca e Madrid, no ano de 1890.
Note-se que, à época, o ambiente vivido na Academia do Porto correspondia a um fulgor sem par sob aquela que ficou conhecida como a Geração do Ultimatum, conforme se pode atestar pelo texto abaixo:
"A Academia do meu tempo era convicta e entusiasticamente republicana, sob o impulso duma fé ardente nos destinos gloriosos da Pátria, mas a sua intervenção, mais teórica do que prática, mais de reacção do que de acção, era essencialmente doutrinária e evolutiva. [...] Estava eu no meu 2.º ano médico quando se desencadeou, em 1889, o chamado movimento do Ultimatum, que, nascido gloriosamente na Academia do Porto, rápido alastrou pelas demais Academias, numa onda de brio, de exaltação e de redenção."
Trata-se aqui de uma referência à Liga Patriótica do Norte - segundo Rui Ramos "uma mistura de estudantes das escolas superiores do Porto, todos muito extremistas, de jornalistas republicanos e de muitas notabilidades locais do Partido Progressista". A Liga era uma das manifestações de revolta contra a cedência do governo português ao célebre Ultimatum britânico sobre o "Mapa Cor-de-Rosa". Inicialmente dirigida por Reis Santos, Antero de Quental foi rapidamente eleito seu presidente.
Curiosamente, é neste frenesim patriótico em que vivia a Academia que surgem provas inequívocas da participação tuneril e estudantil no movimento anti-Ultimatum, como atesta a capa da pauta do pasacalle “Amor da Pátria”, “Brinde aos Académicos do Porto” (referência ao movimento do Ultimatum), de Eduardo da Fonseca, que apresenta um desenho com vários estudantes de Capa e Batina.
O Jornal de Salamanca "El Adelanto" recebeu a 2 de abril de 1890 o seguinte telegrama oriundo do Porto:
"Cien delegados de la academia portuguesa llegan a Salamanca el siete abril y van a tratar la federación escolar de la península. Los miembros del Directorio de la Federación Académica portuguesa, Silvestre Falcao, Hyginio Sousa - Reis Santos. »
Como ven nuestros lectores por el telegrama anterior, es ya oficial la noticia de la visita que nos harán los estudiantes portugueses. Esperamos que Salamanca, observe en este acto la conducta que aconseja nuestra hidalguía y la reciprocidad, en los obsequios que los estudiantes españoles han recibido en Portugal. Creemos que todos los elementos de Salamanca y la masa del pueblo en general saludarán con el afecto que se merecen nuestros vecinos. En ello no está solo interesado el cuerpo escolar, sino España entera (...) "
O mesmo jornal informa a 5 de Abril de 1890, na página 2 do mesmo, que
" Esta tarde a las dos y media, se reunirán en la cátedra de Fray Luis de León de esta Universidad, los estudiantes de las distintas facultades e instituto, con el fin de acordar los detalles del recibimiento, que han de hacer a sus compañeros los estudiantes de Portugal.”
O periódico "El Fomento" informa, por sua vez, a 7 de Abril de 1890 na 1.ª página e seguinte:
"Los estudiantes portugueses han anunciado su visita a los españoles en el siguiente mensaje:
«Camaradas: Después del insulto lanzado por Inglaterra á la faz del honrado Portugal, los estudiantes portugueses, alzados en un movimiento de patriótica protesta, recibieron de sus colegas de Europa las más gratas pruebas de adhesión y simpatía. (…) Desde entonces fué constante deseo para los estudiantes de Oporto el manifestar su gratitud a los caballerescos colegas españoles; pero ocupados en los trabajos de la federación académica portuguesa, no han podido hasta ahora determinar y anunciar su visita a las Universidades de Salamanca y Madrid. (…) Contando de antemano con vuestra adhesión, os pedimos que presteis apoyo a la comisión de la estudiantina que llegará á Madrid el día 9 por la mañana. El presidente de la comisión de propaganda de La Academia de Oporto.- Jerónimo Moreira.»
"Anoche presenciamos en el teatro del Liceo el espectáculo más hermoso que podíamos imaginar. (…) Los estudiantes portugueses, presentados por el señor Huebra, aparecieron en un palco, y desde allí dirigieron la palabra al público, produciendo delirante entusiasmo, que se manifestaba con vítores a Portugal, a España y a la federación ibérica. Después continuo la función saliendo el público vivamente impresionado, que en su mayor parte acompañó a los estudiantes hasta la Fonda del Comercio."
No Carnaval de 1897, a estudantina portuense marca presença em Santiago de Compostela, sob a regência de Carlos Quillez. Dessa memorável viagem, temos uma crónica interessantíssima no jornal O Tripeiro, feita 54 anos após o acontecimento, por mão de um jornalista que, baseado em documentos (jornais da Galiza, nomeadamente) cedidos por Álvaro de Sousa (então sócio da Ourivesaria e Joalharia Reis), antigo componente da Tuna do Porto, na altura denominada de Estudantina Académica do Porto. Do extenso e rico texto lê-se:
“A chegada da ‘Estudantina do Porto’ a Santiago de Compostela, ao cair da noite de 28 de Fevereiro de 1897 deve ter sido qualquer coisa de indescritível! Desde que haviam pisado terra espanhola, não cessaram os portugueses de ouvir vibrantes aclamações e espontâneos e entusiásticos ‘vivas’, que cresceram cada vez mais até à chegada a Pontevedra, a cidade em que se viram obrigados a deter-se e a dar um concerto e... a bailar no Casino até de madrugada. (...)
Saíram de Pontevedra às dez da manhã do dia seguinte em direcção a Villa Garcia em seis carrillanas (diligências) – pois ainda estava em construção a linha férrea de Pontevedra a Caril -— pelas quais pagaram uma enorme soma. Em Villa Garcia eram esperados pelos colegas galegos que compunham a comissão de recepção da Universidade compostelana e por alguns escolares portugueses. Entre intermináveis e ininterruptos ‘vivas’ e aclamações, a triunfal viagem continuou, agora de comboio, que chegou, já ao anoitecer, a Santiago de Compostela. Imediatamente, duas bandas de música rompem com a marcha real portuguesa, com o ‘Hino da Carta’; rebentam morteiros e salvas atroadoras de foguetes; estrugem palmas vibrantes, erguem-se incessantes ‘vivas’ a Portugal, aos quais uma compacta multidão, agitando os chapéus, corresponde com o mais frenético entusiasmo!
O Cortejo – com archotes e fogos de bengala – que a custo se organizou desde a estação de Cornes até ao Coliseu da Rua Nova onde, pelas autoridades civis e académicas, seriam dadas as boas-vindas a ‘los simpáticos portuguesiños’, atravessou avenidas e ruas literalmente atulhadas de povo delirante; ruas vistosamente iluminadas e adornadas de ricas colgaduras nas janelas, das quais as senhoras erguiam ’vivas’, lançavam flores e acenavam com lenços aos recém-chegados. Os homens ostentavam na botoeira do casaco botõezinhos cobertos de tecido azul e branco. O entusiasmo invadiu toda a gente e todas as classes. Um jornal compostelano afirma não haver memória de ‘recibimiento tan brillante’! “
Em 1898 a Estudantina Académica do Porto viaja a Salamanca.
Um ano depois, em 1899, participa nas comemorações do primeiro centenário do nascimento de Almeida Garrett, sob direcção de Henrique Carneiro. Passado um ano, em janeiro de 1900, a Tuna instala-se na Rua dos Fogueteiros e da regência encarregam-se, sucessivamente, os maestros Sousa Morais e Costa Carregal.

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